
Nascida no município de Nazaré da Mata, Zona da Mata Norte de Pernambuco, a torcedora do Sport não gozou do luxo de viver cada uma das etapas naturais da vida. De criança a mulher adulta. Vinda de família pobre e filha única de José Joaquim, lavrador de cana-de-açúcar, Dona Maria teve que tomar as rédeas da própria vida desde muito cedo. Abandonada pela mãe após seu nascimento, Dona Maria passou a morar com o pai ao lado da madrasta. A ausência da figura materna, nunca conhecida por Dona Maria, também não foi suprida pela madrasta.
“Na minha infância, eu não tive direito a brincar. Quando eu era meninota, a minha madrasta era muito ruim, dava muito em mim e não deixava eu sair para brincar. Aí eu fugia todo dia de casa. Já dormi em canavial de cana no meio da noite, passando o dia todo escondida com medo das cobras, porque não queria apanhar. E meu pai não fazia nada, porque era ‘pau mandado’ dela”, contou. A violência física, no entanto, não foi o único mal conhecido por Dona Maria quando criança. Ela também sentiu na pele o racismo. “Meu pai disse que não queria ficar comigo porque minha madrasta não gostava de mim, porque eu era preta. Aí ele me deixou”, confessou.

O recomeço
Recém-chegada em Carpina, Dona Maria foi adotada por Dona Chana, uma senhora que vendia almoços no centro do município. As duas já se conheciam por conta das idas e vindas do seu pai, José Joaquim, aos domingos, para fazer feira na cidade. Foi a vendedora de quentinhas a primeira a ser procurada pela torcedora do Sport, que pedia um teto para morar. A comerciante aceitou o pedido. O ‘sim’, no entanto, marcou o início de um pesadelo que durou 27 anos. Morando com a comerciante, Dona Maria assumiu outro papel: o de empregada doméstica.
“Não tive direito a nada, só a trabalhar. Como eu era preta e ela tinha uma filha, Nininha, bem alva, de cabelo bonito, ela cuidava mais da filha e não cuidava de mim. Eu só existia para trabalhar e a filha dela não fazia nada. Durante os 20 anos que passei lá, desde que cheguei com sete anos de idade, só fiz lavar prato, casa. Eu saía carregando comida de Carpina até Tracunhaém para levar almoço para o genro de dona Chana. Todo dia, no sol quente”, relembrou.
Nesse instante, Dona Maria para a conversa. “Mas, minha filha, foi lá que eu comecei a perceber que precisava tomar outro rumo”, prossegue. Ela lembra que recebeu uma proposta tentadora: construir uma casa e dividi-la uma com a filha de Dona Chana. “E quem não quer ter uma casa? Eu fiquei doidinha para ter uma casa. Eu me danei a bater tijolo, puxar água naquelas cacimbas. Eu batia barro também para botar nas grades. Fiz tudo sozinha. Quando a casa estava pronta, perguntei: ela é minha e de Nininha, não é? Dona Chana disse: não, é só de Nininha. Aquilo ali me deu uma revolta tão grande no mundo, tão grande... Foi por isso que saí de Carpina”, detalhou.
Começar de novo
Na época com 27 anos, Dona Maria novamente procurava um lugar para reconstruir a vida. Sem perceber, a grande paixão da vida começava a se desenhar. “Eu sempre gostei de futebol, de esportes. E eu ouvia minhas amigas de Carpina falando que no Recife tinha um time de futebol rico, o Sport. Aí eu fiquei empolgada porque queria conhecer esse time de qualquer jeito, não sei o porquê. Vim para Recife também por conta disso”, explicou.

A casa do italiano foi o lar de Dona Maria por quase 40 anos, mesmo quando conheceu e esteve casada por 30 anos com João Assis de Oliveira, seu marido. Na casa dos Sarubbi, Dona Maria trabalhou como babá e criou os três “Eu vi nascer, tirei do carro, botei no colo... Criei eles como meus filhos. Todo mundo gostava muito de mim e me tratava bem”, revelou. Aos domingos, a família tinha um compromisso inadiável: ir à praia de Pau Amarelo. “Parecia que era uma praga… Eles iam para Pau Amarelo, e aí batia com o dia do jogo do Sport. Eu ia para cuidar dos meninos, mas chorava demais. Eu chegava atrasada para o jogo, mas eu vinha”, confessou.
A nova família
Dona Maria nunca saiu da vida dos italianos. E vice-versa. Seu Sarubbi e a esposa Maíse faleceram, restando da família apenas os filhos Silvana e Paulo. São eles que, em retribuição ao carinho dado por Dona Maria na infância, cuidam dela até hoje. Por ironia do destino, torcem pelo Náutico. Mas Dona Maria não se atém à rivalidade, e brinca: “É o jeito. Ninguém é perfeito", brinca. Apesar da idade avançada, Dona Maria não parou no tempo. Continua com personalidade forte, independente. Há dois anos, escolheu viver distante dos filhos de criação e hoje mora sozinha em um condomínio de propriedade da família Sarubbi, em Afogados. “Todo dia eles (Silvana e Paulo) ligam, me levam para médico, para passear. Cuidam de mim”, explicou.
E é dentro do seu ‘cantinho’ que Dona Maria faz o que quer. O cronograma está na ponta da língua. Todos os dias, levanta da cama às seis da manhã, toma café, varre casa, cozinha e lava os pratos. E ainda tem disposição de sobra para fazer uma das coisas que mais gosta: pular corda. “Eu pulo corda aqui dentro de casa porque lá fora, se me verem pulando corda, vão achar que a velha está doida”.

É assim que Dona Maria caminha, segue a vida, inclusive compartilhando o segredo que, para ela, é a fórmula da longevidade: nunca desejar mal a ninguém, nem ao próprio inimigo. “Só tome conta da sua vida”, aconselhou. Para quem teve uma vida de batalhas - vencidas -, Dona Maria também não tem medo da morte.
"Quando eu morrer quero sair do Sport, ir em um caminhão do carro dos Bombeiros, passar pelo Palácio do Governo até chegar no cemitério. E quero ser enterrada na frente do cemitério, não é atrás não. Porque quando o negro morre, enterram lá no fundo. E eu tenho muito orgulho da minha cor. Eu vou quando Deus quiser, mas sei que ele não quer que eu vá agora, disso eu tenho certeza", garante. E com a experiência inerente aos seus 95 anos, Dona Maria escolhe aproveitar o presente. "O momento mais marcante da minha vida é estar viva."